"(...)Meias verdades
E muita insensatez."

(Flora Figueiredo)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Fingia que não esperava nada além de um olhar de canto, um toque no ombro. Qualquer coisa além daquela dúvida que crescia até antes de não ser percebida, de não tornar-se percebida. Uma hora viria a redenção.
E para que não chorasse, pensava em coisas como: calma, menina. Calma que vai passar. Essa onda de maus fluidos está indo embora, um hora tudo se ajeita. E se não se ajeitar... O que não tem remédio, remediado está.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Sob(re) a estação

A vontade dá e ultra-passa. Abandono os sentidos. O relógio toca esperando que eu tenha entendido que o tempo já passou, meu amor. Estamos sozinhos nessa estação, esperando um ónibus que nunca chega. Estou do outro lado da estação e você não me vê. Você, que só consegue enxergar o que é efémero. Mas começo a não cultivar esse envolvimento porque sei que você não está disposto a aceitar tudo o que eu tenho a oferecer. O que eu tenho é demais para apenas uma viagem sem volta, e suas passagens sempre estão marcadas. Não quero me perder na estação, meu bem. Então, prefiro não terminar a viagem. Pego um táxi na volta, pago mais caro por desistir dessa aventura mais cedo do que o imaginado. Entenda: com o tempo você iria esquecer de me regar. A longo prazo, love, você só me traz problemas. Saio de um abismo, para encarar outro. Por enquanto, fico à margem. Me aceito, te aceito.

domingo, 20 de novembro de 2011

E tinha vergonha da minha nudez diante da sua, porque a minha nudez era, antes de tudo, de sentimento.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A gente vai levando...

"(...)Mesmo com o nada feito, com a sala escura
Com um nó no peito, com a cara dura
Não tem mais jeito, a gente não tem cura
Mesmo com o todavia, com todo dia
Com todo ia, todo não ia
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando..."
(Vai levando, Chico Buarque)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"Adoramos a ambiguidade do aceno, que pode ser um oi e um tchau."
(Fabricio Carpinejar)

sábado, 29 de outubro de 2011

Lembro de você como memória viva, que logo se mistura com outras memórias e forma um emaranhado de momentos. Continuo sem querer entender o porquê desses afastamentos, se por dentro estavamos sempre tão presentes. Sem dores e sem cicatrizes, houve uma partida?
Não lembro o momento exato em que dissemos a-deus. Ainda não era tarde.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Sem pés, nem tripés

"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar. Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre? [...]Perder- se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende. E eu quero ser presa. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa. É? Também , também. (...)Sei que precisarei tomar cuidado para não usar superficialmente uma nova terceira perna que em mim renasce fácil como capim, e a essa perna protetora chamar de uma verdade Mas é que também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. E - e se a realidade é mesmo que nada existiu?! Quem sabe nada me aconteceu? Só posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo - que sei do resto?
O resto não existiu."
(A paixão segundo G.H., Clarice L.)

domingo, 23 de outubro de 2011

"Faça como eu que vou como estou,
porque só o que pode acontecer...
É os pingo da chuva me molhar."
(Os pingos da chuva, Novos Baianos.)

sábado, 15 de outubro de 2011

Depois do tempo, mais tempo.

É claro que se há de continuar.
Agora, continuar é a única sensatez possível.

sábado, 8 de outubro de 2011

"Porque o coração, meu filho,
o coração tem sempre outro pensamento."
(O último voo do flamingo, Mia Couto)
Então, comecei a cuidar de tudo que não foi;
De tudo que continuou aqui,
De tudo que não pôde ser.
Não quis morrer na contra-mão.